No livro Design, Ergonomia, Emoção há um artigo bastante interessante da professora Lucy Niemeyer, que nos chama a atenção para o que chama de Design Atitudinal. Nele, a autora apresenta diversos argumentos sobre uma abordagem contemporânea no design que levaria em conta, além de apenas a ergonomia e usabilidade do objeto, também um ponto basilar na vida do homem que é a emoção. Não será descrito literalmente os argumentos da professora sobre o tema, mas usarei a temática introduzida por ela para colocar alguns pontos relevantes sobre.
O uso da emoção num projeto de design é tarefa realmente difícil, pois por se tratar de algo extremamente subjetivo, que pode ser suscitado de maneiras completamente diferente nas mais diversas pessoas, pelos mais diversos sígnos; e colocá-lo como um requisito de projeto certamente alcançavel poderia ser classificado como “impossível”. Mesmo que se realizem testes com usuários, analisar a “emoção” causada por um produto é totalmente diferente de analisar o modo como o usuário reage fisicamente com o objeto, se consegue pegar direito, se não há desconforto, etc.
Mesmo assim, podemos intuir resultados. Projetar lançando mão de um universo sígnico que corresponde ao do público do produto se mostra mais do que fundamental para alcançar qualquer resultado nesse campo. E não só isso, mas ir mais fundo na essência do que esses signos poderiam remeter dentro do universo dessas pessoas, a tal ponto de a sensação emocional ser algo constante, não pontual, e é aqui que penso estar a sutileza que o designer deve prestar atenção.
Uma coisa é o produto atrair a atenção do usuário por um motivo emocional, e essa explosão momentânea converte-se em desejo de posse, e a seguir em compra, mas que esse detalhe ao longo do tempo mostre-se como meramente decorativo, ou até mesmo um estorvo. Diferente disso é que a referência encontrada no objeto remeta constantemente o usuário a esse momento emocional inicial, e quem sabe até pré-conhecedor do produto. Que o movimento emocional seja uma constante no uso do produto, e não uma das ferramentas de venda deste.
Exemplos nesse tipo de projeto são difíceis de serem encontrados, por isso remeterei diretamente à série de produtos projetados pelo próprio Estudio-Cinco, que é a série Objetos Afetivos. No projeto, partiu-se do desejo de gerar objetos focados no campo da comunicação, mais especificamente entre pessoas que possuem algum tipo de laço afetivo entre si. Os objetos pensados deveriam então necessariamente primar por esse uso contante da emoção, que não poderia ser apenas um momento impulsivo na compra, mas algo que ataria melhor os laços já existente entre os usuários.
A Relousa, por exemplo, torna-se um constante momento de criatividade, e caso não seja necessário, pode ser simplesmente usada para deixar um rápido lembrete. O trunfo do produto é que abre para o usuário agir da maneira que achar mais conveniente para seu momento.
Não há forte intervenção por parte do produto, mas, mesmo assim, esse traz fortes pontos referenciais que acabam remetendo o usuário a universos anteriores. Lança mão de um ícone que seria a lousa de escola, o que por sí já traz uma carga emocional que varia conforme a pessoa teve sua infância. Por ser um ícone, o modo de interagir com ele acaba igualando-se ao referente do signo, que seria a já comentada lousa escolar. Desenhos com o giz, recados, corações, etc. tornam-se naturais, pois era o que se faziam nas losas por parte dos alunos. E são modos de deixar o recado que não se fariam da mesma maneira caso pensemos num bloco de recados, ou numa agenda comum.
Esse é um dos motivos pelo qual Lucy aponta a semiótica como uma das chaves para alcançar o Design Atitudinal, e realmente se mostra fundamental um médio conhecimento do campo, mesmo que intuituvamente, para se tentar chegar a uma visão da necessidade desse tipo de carga emocional nos produtos individuais. Um assunto para outra reflexão seria, no entanto, se essa carga emocional mereceria ser vista e tratada no campo do design para ambientes e objetos de uso público, como um vagão de trêm, ou um lixo público no meio de uma praça. Deixaremos esse ponto para um post posterior.
[eduardo camillo]