David Carson tornou-se um ícone do design. Conseguiu através da revista Raygun chamar a atenção para si, de forma a ser considerado hoje o pai da linguagem visual dita pós-moderna.
Controversas à parte sobre o tema da pós-modernidade, Carson por via de seu trabalho conseguiu influenciar fortemente a geração presente, pós-anos 90.
Não formado em design, Carson era sociólogo e surfista quando num contato de duas semanas com o design gráfico resolveu aderir a ele. No seu repertório está um uso variado e criativo da tipografia, muitas vezes com tipos fantasia, além de recursos gráficos classificados como “sujos”, “rebeldes”, “transgressores”, etc. Talvez um dia o fossem, hoje não mais. Um fato é a ausência de preocupações além das formais. A comunicação se faz, como sempre acontece, já que sempre algo é comunicado (embora não necessariamente o que se deseja).
Essa linguagem de Carson, no entanto, remete a um universo do design moderno pós-I Guerra, que é o design gráfico ligado ao Dadaismo, mais especificamente com Merz. Artista plástico, é considerado um dos pais da Instalação com sua Merzbaus, fez parte do grupo Dadaísta e se destacou dentre seus membros. Foi responsável por diversos impressos do grupo, todos com uma linguagem sempre próxima à proposta de questionamento do grupo. Influenciados pelo uso tipográfico livre de alguns artistas gráficos construtivistas Russos, inovaram ao utiliar mais de uma face tipográfica para as obras, de forma a
criar uma textura visual interessante e coesa com a proposta intelectual do grupo, que era a desesperança na promessa salvadora da tecnologia, racionalismo e idealismos que se propunham nos tempos precedentes, e que cairam por terra com a primeira grande guerra. São dessa forma considerados uma vanguarda Negativas, opondo-se às chamadas Positivas, que englobavam as linhas racionais que a arte, design e arquitetura estavam tomando com a revolução russa, o cubismo (que trouxe como contribuição a eles a técnica de colagem) e o concretismo em geral. O cartaz ao lado foi para uma reunião Dada que aconteceria, e foi feito em litografia por Merz e, interessante, por Doesburg, um dos pais do Neoplasticismo bem como da arte e design concretos.
Nas decadas de 50 e 60 foi um estilo que permaneceu estagnado, pois quem dominava era o funcionalismo, quer americano que alemão, mas acabou retomado na década de 70, quando a arte conceitual começava a tomar parte no cenário artístico, assim como um boom de grupos ideológicos que no design estavam reagindo ao funcionalismo como unica saída de projeto.
Carson, na década de 90, quando estoura, acaba possuindo um trabalho que remete diretamete a essa pleide de projetos gráficos, e não se pode afirmar que seja por acaso. Ele enquanto Sociólogo certamente teve contato com essa filosofia niilista Dada e todo momento relativista que estava começando a nascer nas
décadas de 70/80, o que acabou influenciando-o na sua abordagem gráfica. Em entrevista afirmou certa vez sobre seu trabalho: “I never learned all the rules, all the things you’re not supposed to do (…). So I don’t believe the attitude, ‘learn the rules to know how to break them.’ “. Claramente, há uma atitude de desdém para com o que se vinha fazendo anteriormente, e soa certo oportunismo sua participação e sucesso no design gráfico. Suas soluções gráficas são via tentativa-erro, e, numa concepção de design enquanto projeto, acabam deixando a desejar, assemelhando-se mais a um trabalho ilustrativo autoral que a um projeto efetivamente de design. Além disso, essa linha de trabalho que desenvolve, além de soar repetitiva dentro de si mesma, é gratuita. Enquanto no design Dadaísta havia o porquê de sua solução gráfica, Carson desconhecia qualquer motivo gráfico efetivo para poder questioná-lo. Essa sua frase de que “I don’t believe the attitude, ‘learn the rules to know how to break them.’ ” mostra-se simplesmente simplória e desconcertantemente vaidosa para alguém que visaria comunicar informação pela via gráfica. Há designers que por conhecerem essas ditas regras, e conhecê-las de maneira aprofundada, conseguiram desenvolver um trabalho muito mais coeso e conceituado que o simples grafismo formalista que Carson faz. Um deles pode ser o designer brasileiro Vicente Gil, que também com uma abordagem voltada à tipografia, conseguiu de modo muito eficiente utilizar princípios ditos modernistas em uma linguagem clara e pós-moderna. Mesmo Saul Bass inovou nessa maneira de projeto. Enfim, o trabalho de Carson, embora visualmente interessante enquanto experimentação gráfica, deixa a desejar no seu conteúdo e motivo formal, característicos da pseudo-pós-modernidade.
[eduardo camillo]